Dez anos separam os lançamentos de ‘Titanic’ e ‘Ó Paí Ó’, mas uma coincidência une os dois filmes, e acho conveniente usá-la aqui para iniciar essa conversa, afinal, a coluna hoje vai colocar o clássico hollywoodiano no contexto da Bahia de Roque e companhia.
Sabe a cena em que (a personagem de) Kate Winslet posa nua para Leonardo DiCaprio desenhá-la? Revendo, hoje em dia, acho parecida com aquela em que Emanuelle Araújo pede a Lázaro Ramos para pintá-la de Timbalada. Proposta artística, seios à mostra… Mas a coincidência mora mesmo no fato de em ‘Ó Paí Ó’ essa ser a primeira cena, a abertura; e em ‘Titanic’, apesar de só aparecer lá na meiuca, é a primeiríssima cena gravada da superprodução.
Ok, começar o texto com essa correlação amalucada talvez não tenha sido ok pra você, mas tenha certeza que maluquice combina com o que se passou nos cinemas de Salvador, há 25 anos, logo após a chegada do vencedor de 11 Oscars.
‘Titanic’ estreou nos Estados Unidos em 19 de dezembro de 1997 e, diante da comoção que causou por lá, quando estreou na Bahia, no 16 de janeiro seguinte, não deu para quem quis. Com muito menos salas do que temos hoje em dia, a cidade viu até cinemas mais acanhados, no Centro, superlotarem, criando um mercado paralelo – havia cambistas na entrada cobrando quase o dobro pelo ingresso.
|
|
|
Filas para ver ‘Titanic’ continuavam imensas, no Cine Tamoio, nove semanas após o lançamento do filme na cidade (Foto: José Simões/Arquivo CORREIO) |
É o que mostra reportagem do Correio da Bahia de 16 de março de 1998 intitulada ‘Cambistas de Titanic vendem ingressos com ágio’. “A ida ao cinema para ver Titanic pode ir por água abaixo, caso os ingressos não sejam comprados com um dia de antecedência. Nove semanas depois de lançado em Salvador, o filme ainda provoca filas tão gigantescas quanto os números de sua produção e, ajudado pela indicação a quatorze Oscars, até ressuscitou uma prática que andava esquecida nas proximidades das bilheterias: o câmbio paralelo”, relata o texto.
Logo nos primeiros dias, o sinal de algo do tipo aconteceria era demonstrado em reportagem assinada por Liliane Reis.
“O movimento do Shopping Barra reúne elementos de ineditismo. É a primeira vez que os ingressos são vendidos na véspera, é a primeira vez que tem sessão para adultos às 10h da manhã (também lotadas) e mais: é a primeira vez que a fila se mistura em meio à área do fast-food e ultrapassa a escada rolante”, dimensionava a jornalista.
Tinham passado apenas dez dias do lançamento, e ‘Titanic’ já havia arrastado 40 mil espectadores apenas às cinco salas do circuito Orient, batendo o recorde de ‘MIB – Homens de Preto’, no mesmo período. O filme só não ocupou todas as salas porque coincidiu com o lançamento ‘007 – O Amanhã Nunca Morre’, outro peso pesado.
“Tem uns que quando descobrem que os ingressos estão esgotados se exaltam e ameaçam bater na gente”, relatava o diretor da Orient Films. Por conta da situação atípica, alguns cinemas permitiram que espectadores assistissem ao filme, com 3h14 de duração, sentados pelas laterais das cadeiras ou mesmo de pé.
Poucas salas
Ainda de acordo com o diretor da Orient na época, o sufoco acabaria em março, quando seria inaugurado o complexo de 12 cinemas no antigo Shopping Iguatemi (atual Shopping da Bahia). “No Itaigara, a maior sala foi escolhida para abrigar Titanic, movimentando os bares das redondezas com gente fazendo hora. Já no Imbuí Plaza, com apenas cem lugares e o menor cinema da rede, muita gente bateu com a cara na bilheteria”, cita um texto do dia.
A falta de vagas nos cinemas mais acessados fez boa parte da galera recorrer às salas menos procuradas, no Centro.
“A situação é inusitada. Em pleno domingo, com o centro deserto, na porta do cine Tamoio formava-se uma aglomeração há muito não vista por aquelas bandas. Sala que, com o surgimento dos cines de shoppings, atravessou momentos de exibir filmes para um ou dois pagantes, não comportou todos os espectadores sentados e deixou muitos espremidos na sala de espera. Isso tendo 475 lugares, superando os cines Lapa e Itaigara I, juntos”.
A espera de três horas e meia do lado de fora era comum para alguns que não queriam voltar pra casa de olhos e ouvidos abanando, mas evitar isso podia depender de pagar quase o dobro pelas entradas com um cambista: em um dos lugares, o ingresso, que na bilheteria custava R$ 4 (inteira), estava saindo a R$ 7.
“A procura pelo principal candidato ao Oscar tem sido tão grande que em todas as salas que exibem Titanic, situadas em centro comerciais, os bilheteiros controlam com um mapa de vendas o fluxo de clientes que compram ingressos. Para o dia seguinte”, cita outro texto.
A tentativa de ver o filme no mesmo dia quase sempre batia no iceberg das filas, caso os interessados chegassem à bilheteria após a primeira sessão, às 10h. A falta de salas foi minimizada quando, como previu o diretor da Orient, foi aberto o complexo de 12 cinemas do Iguatemi. No Brasil, ‘Titanic’ levou cerca de 17 milhões de pessoas aos cinemas e liderou a lista de maior bilheteria de todos os tempos em 21 países.
Fonte: Agência Brasil
