O empreendedor de tecnologia Enzo Alves, 30 anos, e seus colegas de trabalho sentem-se inseguros quando deixam o prédio da empresa em que atuam, no bairro do Comércio, em Salvador. Isto porque, em dois anos – de 2020 para 2022 -, o número de ocorrências de roubo e furto na região cresceu 30%, se comparados os dez primeiros meses de cada período, segundo dados da Secretaria de Segurança Pública (SSP-BA).
“Não é muito seguro, por exemplo, sair da Avenida França e andar até a Avenida Estados Unidos após às 17h, por não ter fluxo de pessoas, nem policiamento ativo. A gente tem uma sensação de insegurança muito grande que, às vezes, não é apenas sensação, é realidade”, desabafa Enzo.
Enquanto em 2020, entre janeiro e outubro, foram registrados 405 furtos na região, no mesmo período de 2022 a quantidade foi 22% maior, com 496 ocorrências. O percentual cresce ainda mais para os casos de roubo. Ao todo, 429 ações do tipo ocorreram nos dez primeiros meses deste ano, frente aos 302 fichados em 2020.
Isto significa que a ameaça e a violência são elementos frequentes nas ações criminosas em que as vítimas têm seus pertences levados, uma vez que o crime de roubo se caracteriza pelo uso da brutalidade no momento do assalto. Já o furto consiste na mesma ação de subtrair pertences, mas sem o uso dos mecanismos de coação, realizando ações como saquear carteiras ou celulares dentro de bolsas ou bolsos, segundo os artigos 155 e 157 – respectivamente – do Código Penal.
Diante dessa realidade, e motivado pelo medo diário, Enzo Alves criou uma petição online e um abaixo-assinado pedindo mais segurança. Aberto no final de outubro, o primeiro documento já ultrapassou a marca das 10 mil assinaturas.
Em alguns de seus relatos, o autor do documento conta que, em plena luz do dia, um funcionário teve os pertences levados quando voltava do almoço. “Outro foi abordado por criminosos quando entrava no carro. Já em uma nova situação, um grupo inteiro foi assaltado a caminho da empresa”, afirma o empreendedor.
Pesquisadora da Rede de Observatórios de Segurança na Bahia e cientista social, Luciene Santana, descreve essas ações como crimes de oportunidade que, no bairro do Comércio, podem ocorrer como resultado de alguns fatores. O primeiro deles é a perda do direito de circular na região, por falta de segurança pública.
Ser bem movimentado é uma das características importantes para que um local seja seguro, quando falta segurança, ele tende a se esvaziar progressivamente. Fecham-se os estabelecimentos e o ciclo segue até tornar o espaço deserto e um atrativo para a ação de bandidos. Somado a isso, há falta de iluminação – outro fator propiciador.
Manual de proteção
Na tentativa de se proteger contra a violência, quem transita pela região opta por sair em grupos no final do expediente. Mas quando não é possível aproveitar a saída coletiva, a opção é tentar agilizar as demandas antes do anoitecer. Até correr, literalmente, para o ponto de ônibus entra na lista de proteção. “E [correr] o mais rápido possível para garantir que nada aconteça, porque depois das 18h, tem determinadas ruas que são menos iluminadas do que outras, então é melhor ir por essas ruas iluminadas, mesmo que o caminho seja mais longo, do que arriscar”, revela Enzo.
Por não ser uma demanda específica da empresa em que trabalha, o empreendedor entrou em contato com proprietários e funcionários de outros pontos comerciais localizados na região, antes de iniciar o abaixo-assinado e, para sua surpresa, muitos deles tinham situações negativas para contar.
Seu Manolo, como é conhecido o proprietário do restaurante Manolo Rei do Pernil, por exemplo, conta que tinha uma rotina agitada no estabelecimento que funciona desde 1930, no bairro do Comércio. Às 19h, quando costumava fechar, precisava limitar o número de clientes que não paravam de chegar. Agora, por causa da falta de segurança, ele precisa encerrar os atendimentos às 16h.
Manuel** é baleiro e circula pelo Comércio há dez anos. Apesar de nunca ter vivido uma situação de violência, já testemunhou diversos assaltos no local, principalmente nas áreas que dão acesso a pontos de ônibus. “Eles [criminosos] até respeitam a nós ambulantes, na certa porque sabem que nosso trabalho é estar nas ruas. Mas como não somos cegos, o que mais vemos são situações em que outros trabalhadores não são perdoados pela criminalidade”, conta o vendedor.
Diante dos testemunhos que surgem das situações de violência vividas no bairro, Luciene Santana alerta para o perigo dos estereótipos. “Estigmas não devem ser favorecidos, para que o preconceito não recaia sobre o bairro ou sobre sua população. O principal é garantir segurança e locais para que as pessoas voltem a frequentar o bairro. Logicamente, com mais infraestrutura”, afirma a pesquisadora, destacando que a segurança pública, apesar de exigir policiamento, vai além dele.
Segurança pontual
A falta de policiamento na região é comum, segundo os comerciantes e trabalhadores ouvidos pelo CORREIO. No entanto, há períodos pontuais de reforço. Enzo aponta a chegada de cruzeiros ao porto do Comércio como o principal.
No entanto, a presença de policiais militares dura apenas o tempo em que as embarcações permanecem atracadas. “No início da semana [final de outubro] tivemos um cruzeiro aqui e vimos um efetivo grande comparado ao que temos normalmente”, conta o autor do petição online.
A pandemia foi outra ocasião que contribuiu para o aumento no número de policiais alocados no Comércio. Por ser dona do seu próprio negócio, nesta época, Silvana** passou a trabalhar com delivery. Como precisava sair para fazer entregas e reabastecer o estoque, a região continuou sendo um roteiro frequente. “Era fácil encontrar policiais em ronda ou parados, mas agora já voltamos ao abandono normal”, afirma ela.
Um contingente de agentes do Grupo de Apoio ao Turista (GAT), da Guarda Municipal, ficava presente na região durante a pandemia, mas segundo os transeuntes, devido ao relaxamento das medidas preventivas contra a doença, a guarnição não foi mais vista por eles.
É possível assinar a petição online no site cherge.org. Para isso, é preciso digitar na barra de buscador da plataforma o título “Solicitação de policiamento ativo e segurança no bairro do Comércio, em Salvador-BA”.
Em nota, a Polícia Militar negou que o policiamento esteja presente apenas quando há navios atracados, e afirmou que são realizadas rondas diuturnamente, com viaturas e motos da 16ª CIPM – responsável pela segurança do bairro.
“Para minimizar a incidência de atividades criminosas na região, a Companhia vem empregando várias operações extraordinárias com foco na redução de Crimes Violentos contra o Patrimônio (CVP) como é o caso da Operação Corredor Turístico de Salvador (CTS) e da Operação Cooper”, informa o texto.
Procuradas, para esclarecer como têm atuado para reduzir a ocorrência de crimes no Comércio, a Secretária de Segurança Pública (SSP-Ba) e o Grupo de Apoio ao Turista (GAT), através da Guarda Civil Municipal (GCM), não responderam ao questionamento até o fechamento desta matéria.
**Os entrevistados pediram para ter a identidade preservada.
*Com orientação da subchefe de reportagem Monique Lôbo
Fonte: Agência Brasil