Por décadas, o crocodilo era tido como parte de crânio de dinossauro
Uma nova descoberta esclarece fósseis de um crocodilo que, por muito tempo, foi considerado um pedaço de um crânio de um dinossauro.
Segundo o paleontólogo, Fabiano Vidoi Iori, a espécie “Titanochampsa iorii” foi vista pela primeira vez na década de 50, durante a remoção de rochas de uma estrada rural do município de Monte Alto. Os operários encontraram um crânio fossilizado, e, evidenciaram cerca de 1/3 da porção anterior e fizeram uma fotografia. O destino do material, porém, é desconhecido.
Em 1987, o local é revisitado por pesquisadores, um elemento fóssil isolado é encontrado e classificado como parte de um crânio de um dinossauro titanossauro.
Segundo Iori, foi em 2006 que, o material foi analisado e reclassificado com parte de um teto craniano de um crocodiliforme e relacionado com a fotografia de 1950 em um trabalho publicado na Revista Brasileira de Paleontologia em parceria com o pesquisador Antonio Celso de Arruda Campos. Iori é um pesquisador desde 1993.
Um artigo científico recém-publicado na revista internacional Historical Biology, apontou novos caracteres para o fragmento craniano, permitindo o levantamento de feições inéditas e a definição de que se trata de uma nova espécie do Cretáceo brasileiro. A pesquisa também tenta estabelecer os parentescos e contexto paleoambiental do novo crocodiliforme.
O estudo é liderado pelo paleontólogo Thiago Schineider Fachini do Laboratório de Paleontologia de Ribeirão Preto da USP e tem como colaboradores Pedro L. Godoy (USP,StonyBrook University, UFPR),Júlio C. A. Marsola (USP, UTFPR, UNESP),Max C. Langer (USP), e Felipe C. Montefeltro (UNESP).
Thiago Fachini explica que a espécie é nova porque ela possui características distintas dos demais crocodiliformes fósseis encontrados para o Período Cretáceo. Tal conclusão é resultante de uma análise da morfologia geral do crânio de Titanochampsa onde observou-se que as características observadas são semelhantes às de crocodiliformes viventes.
Titanochampsa significa “crocodilo titânico”, uma alusão ao seu grande porte e por ter sido confundido com titanossauro por muito tempo. O epiteto específicoiorii é uma homenagem ao pesquisador Fabiano V. Iori por seus trabalhos na região de Monte Alto e pela prévia identificação do material.
Titanochampsa iorii provem de arenitos da Formação Marília. Uma unidade geológica que se depositou no Final do Período Cretáceo, especificamente no Maastrichtiano (entre 72 e 66 milhões de anos atrás). Na região de Monte Alto são reportados desta formação restos de titanossauros, dentes isolados de crocodiliformes, escamas de peixes, conchas de bivalves além de Kurupi itaata, um dinossauro abelissaurídeo. Os estudos geológicos indicam que havia sazonalidade no clima, o qual era de árido à semiárido, com redução do aporte de sedimentos e constante estabelecimento de paleossolos.
Por se tratar de material fragmentário, a definição do tamanho exato do animal é problemática, contudo, as análises levando em consideração outros crocodilos permitiram estimar um animal com crânio que poderia ter entre 37e75 cm de comprimento e um tamanho corporal entre 3 e 6 metros. Já o espécime retratado na fotografia seria ainda maior, podendo atingir 7 metros, o que torna Titanochampsa iorii o maior “crocodilo” do Neocretáceo brasileiro.
Embora a Bacia Bauru seja famosa por suas inúmeras ocorrências de crocodiliformes, o Titanochampsa iorii é o primeiro formalmente descrito para a Fm. Marília. E diferente de todos os demais, parece pertencer ao grupo dos Neosuchia, um grupo de crocodilifomes ao qual pertencem também, jacarés, crocodilos e gaviais modernos e com hábitos semiaquáticos.
Um animal deste porte com tais hábitos sugerem que ocorreriam corpos d’água frequentes naquele ambiente hostil, ou até mesmo pode ser um indicativo de aumento de umidade na bacia durante o Maastrichtiano.
O fóssil ficará exposto a partir de 16 de dezembro no Museu de Paleontologia Prof. Antonio Celso de Arruda Campos, em Monte Alto. A instituição fica aberta de terça a sexta feira das 8 às 11:30 h e das 13 às 16:30 h; e nos finais de semana, somente na parte da tarde. A entrada é gratuita. Sandra Tavares, paleontóloga e diretora do Museu, lembra que se trata do quintogênero de “crocodilo” inédito da região e que Titanochampsa iorii vai se juntar na coleção com os seus parentes Montealtosuchus, Morrinhosuchus, Caipirasuchus, e Barreirosuchus, além dos quelônios Roxochelys e Yuraramirim e dos dinossauros Arrudatitan e Kurupi.
